UM FIM, SEM COMEÇO...

O homem já não caminhava com a firmeza de antes. Seu andar era triste e melancólico, assim como seu espírito atormentado. A face enrugada e ausente, de firmeza, concretizava a angústia de uma alma cansada, angustiada e fracassada na idealização de sonhos mal acabados.
A vida já lhe esvairava depois de quase um século de presença pouco eficiente.
Com seus oitenta e nove anos, o velho buscava ali, naquele instante em um lugar, alto e ausente, a energia e a força do que tinha aprendido... o que ouvira no passado, as palavras belas e recitadas.
__Vovô o senhor está tão velho. -afirmou-lhe, um de seus tataranetos, que o acompanhou, até ali. -Tem medo de morrer?
A pergunta fazia-se implicante em sua simplicidade...
A resposta que retravava a verdade seria amarga de saudades. Saudades de lembranças imaginadas e que não se fizeram reais, saudades promotoras de sentenças, julgamentos de uma vida.
__Não, menino. Não tenho medo de morrer!
E o silencio invadiu sua alma.
O pesar da idade abateu-lhe, sem chances de fuga. Sentiu o horizonte mais uma vez, como doutras, tão perto e inalcançável.
Naquela tarde de verão o sol punha-se soberano, com toda sua magnânima beleza e excentricidade. Sua luz era divina. Jamais fora daquele modo, tão belo e perfeito. Certamente os milhões de anos que lhe atribuem sejam eficientes em fazer seu esplendor ainda mais radiante. A mesma sorte, não tinha o velho.
Remido de sua arrogância fútil e de palavras amargas, admirava.
Quando abriria a boca para repassar uma de suas lembranças, uma daquelas almejadas e não vividas, um raio de sol, atingiu sua retina adentrando em seu mundo escuro, amargo e fantasioso, tornando em cinzas a ausência da imagem concreta.
Agora era tudo escuridão, numa imensidão asfixiante sufocava nas cinzas de seu crematório e tratava de buscar algo ainda intacto.
Porem não conseguia.
Era incapaz de criar.
Sua imaginação era tímida, como seus sonhos.
Como já não podia ver, cessava ali sua capacidade de visão. A única que tinha, pois aos cinqüenta anos havia sido atingido, no olho, por um marimbondo prestativo... a sua forma.
Desesperadamente ocupou-se, inutilmente, desencadeando uma busca interna, onde pouco encontrou, sendo que isto de nada lhe serviu.