Fatale


15/11/2007


UM FIM, SEM COMEÇO...

 

 

O homem já não caminhava com a firmeza de antes. Seu andar era triste e melancólico, assim como seu espírito atormentado. A face enrugada e ausente, de firmeza, concretizava a angústia de uma alma cansada, angustiada e fracassada na idealização de sonhos mal acabados.

A vida já lhe esvairava depois de quase um século de presença pouco eficiente.

Com seus oitenta e nove anos, o velho buscava ali, naquele instante em um lugar, alto e ausente, a energia e a força do que tinha aprendido... o que ouvira no passado, as palavras belas e recitadas.

__Vovô o senhor está tão velho. -afirmou-lhe, um de seus tataranetos, que o acompanhou, até ali. -Tem medo de morrer?

A pergunta fazia-se implicante em sua simplicidade...

A resposta que retravava a verdade seria amarga de saudades. Saudades de lembranças imaginadas e que não se fizeram reais, saudades promotoras de sentenças, julgamentos de uma vida.

__Não, menino. Não tenho medo de morrer!

E o silencio invadiu sua alma.

O pesar da idade abateu-lhe, sem chances de fuga. Sentiu o horizonte mais uma vez, como doutras, tão perto e inalcançável.

Naquela tarde de verão o sol punha-se soberano, com toda sua magnânima beleza e excentricidade. Sua luz era divina. Jamais fora daquele modo, tão belo e perfeito. Certamente os milhões de anos que lhe atribuem sejam eficientes em fazer seu esplendor ainda mais radiante. A mesma sorte, não tinha o velho.

Remido de sua arrogância fútil e de palavras amargas, admirava.

 Quando abriria a boca para repassar uma de suas lembranças, uma daquelas almejadas e não vividas, um raio de sol, atingiu sua retina adentrando em seu mundo escuro, amargo e fantasioso, tornando em cinzas a ausência da imagem concreta.

Agora era tudo escuridão, numa imensidão asfixiante sufocava nas cinzas de seu crematório e tratava de buscar algo ainda intacto.

Porem não conseguia.

Era incapaz de criar.

Sua imaginação era tímida, como seus sonhos.

Como já não podia ver, cessava ali sua capacidade de visão. A única que tinha, pois aos cinqüenta anos havia sido atingido, no olho, por um marimbondo prestativo... a sua forma.

 Desesperadamente ocupou-se, inutilmente, desencadeando uma busca interna, onde pouco encontrou, sendo que isto de nada lhe serviu.

 

Escrito por Elvis Cley às 19h21
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Entrou em parafuso. Não podia ver e não podia lembrar. Estava e se sentia incapacitado, pela primeira vez. O que já podia ser considerado algo proveitoso. A realidade fazia se nítida.

__Estou cego menino. Não vejo a luz que ilumina a água que mata a sede e o desejo que devora. -constatou ao menino de doze anos, que ainda estava ao seu lado.

__Oh, vovô!Não se preocupe. Tudo o que sabe e aprendeu até hoje já lhe é suficiente para ver a luz, sentir a água e suprimir seus desejos.

E explicou.

__O senhor, aprendeu o poder da luz. Sabe de sua importância, isto o ilumina.

Conhece a força e a capacidade da água, isto o sacia e o adverte, além de sublevar sobre seus desejos, dispondo deles da maneira em que lhe prover.

__E é verdade. Sei o que fazer e como fazer. Como não?-proferiu, em voz altiva.

Então o homem levantou-se, estacando a poeira que impregnava suas vestimentas.

Sentiu uma firmeza única.

Estava seguro do que fazia, acreditava na sua idade, na sua experiência, pois já existia há muito tempo.

Sua expressão era renovadora, contagiante e indescritivelmente ridícula. Seu álibi era divino, mais sua sentença era caótica, menor e destrutiva.

Teria que andar. Ainda estava vivo.

Deu o primeiro passo.

Não caiu.

Deu o segundo.

E também não caiu.

...sentiu algo inexplicável. Fora capaz de arriscar... apenas com o que tinha.E havia conseguido.Aprendia alguma coisa.

Suas peles e músculos flácidos, juntamente com seus neurônios quase inexistentes, guardavam a lembrança vivida. Confiou nela, arrogantemente. E desejou extravagar ao extremo, sem se importar com a cautela de cada descoberta, e deu outro passo.

Então agradeceu a Deus por tamanha façanha. Era tão bom o que sentia momentaneamente, parecia despertar de um sonho ruim. Liberdade.

Segundos depois, estatelou.

A sensação de que voava escapou  na imensidão universal a qual acabava de ser submetido.

Voara por instantes, despencando de um despenhadeiro de quase noventa metros, onde a força da água ao deparar com brusca fragilidade e avareza de seu corpo encarregou de estraçalhar qualquer vestígio daquele inconseqüente, agora já dissipado.

 

 

Escrito por Elvis Cley às 19h18
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